Definição
Deságio é o desconto aplicado sobre o valor de face de um recebível quando ele é vendido ou antecipado antes do vencimento. Na antecipação de recebíveis, é a diferença entre o valor do título e o valor que a empresa recebe hoje, sem contar IOF e tarifas. O deságio remunera três coisas: o custo do dinheiro no tempo, o risco de o devedor (sacado) não pagar e os custos operacionais do financiador. Por isso, duas empresas que antecipam títulos com o mesmo prazo podem receber taxas muito diferentes: quanto mais previsível e saudável a carteira, menor o deságio.
Para entender a operação em si, veja o que é antecipação de recebíveis no nosso glossário.
Como usar a Calculadora de deságio
- Informe o título. Na versão Básica, o valor e o vencimento de uma duplicata (ou do total da operação). Na Avançada, cada título do lote com seu vencimento, ou cole as colunas direto da planilha.
- Escolha a modalidade e a forma de cálculo. FIDC ou securitizadora, desconto bancário ou factoring. A modalidade define se o IOF entra; a forma de cálculo (simples ou composta) está no contrato ou na proposta.
- Some as tarifas. Tarifa por operação, por título e taxas percentuais. São elas que fazem o custo real ficar acima da taxa anunciada.
- Compare. Informe a taxa do seu capital de giro para ver qual sai mais barato e, se quiser, preencha a inadimplência da carteira para ver quanto ela pesa na taxa.
Como calcular o deságio
O mercado usa duas formas de cálculo. A mais comum em propostas de antecipação de duplicatas é o desconto simples:
Deságio = Valor de face × Taxa mensal × (Prazo em dias ÷ 30)
No desconto composto, a taxa é capitalizada mês a mês:
Valor descontado = Valor de face ÷ (1 + Taxa mensal)(Prazo em dias ÷ 30)
Para a mesma taxa nominal, o desconto simples gera um deságio um pouco maior, e a diferença cresce com o prazo. Por isso, comparar propostas só pela taxa pode enganar: o que importa é quanto você recebe.
Exemplo prático
Uma distribuidora cede ao FIDC R$ 500 mil em 40 duplicatas com vencimento em 60 dias, a uma taxa de 2,2% ao mês (desconto simples). O fundo cobra R$ 350 por operação e R$ 8 por título.
| Item | Valor |
|---|---|
| Valor de face | R$ 500.000,00 |
| (−) Deságio: 500.000 × 2,2% × 60/30 | R$ 22.000,00 |
| (−) IOF (cessão a FIDC) | não incide |
| (−) Tarifas: 350 + 40 × 8 | R$ 670,00 |
| (=) Valor líquido recebido | R$ 477.330,00 |
| Custo efetivo | 2,35% ao mês · 32,10% ao ano |
A taxa anunciada era 2,2%, mas o custo efetivo é 2,35% ao mês, por causa da forma de cálculo e das tarifas. Se a alternativa fosse um capital de giro a 3,5% ao mês, os mesmos R$ 477 mil por 60 dias custariam cerca de R$ 34 mil em juros: a antecipação sai R$ 11,3 mil mais barata.
Simular este exemplo na calculadora
Deságio, taxa de desconto e custo efetivo: qual a diferença
| Termo | O que é | Para que serve |
|---|---|---|
| Taxa de desconto (ou taxa de deságio) | Percentual mensal anunciado pelo financiador. | Ponto de partida da proposta. Sozinha, não permite comparar ofertas. |
| Deságio | Valor em reais descontado do título por causa da taxa e do prazo. | Mostra o custo financeiro da antecipação. |
| Custo total | Deságio + IOF + tarifas e outras taxas. | Mostra quanto do valor de face fica pelo caminho. |
| Custo efetivo | Taxa mensal que iguala o valor recebido hoje ao valor de face no vencimento, já com todos os custos. | É o número certo para comparar propostas e para comparar com o capital de giro. |
FIDC, securitizadora, desconto bancário ou factoring: o que muda no custo
| Modalidade | Como funciona | IOF | Para quem costuma fazer sentido |
|---|---|---|---|
| FIDC | O fundo compra os direitos creditórios com recursos de cotistas, aplicando um deságio. | Em regra, não incide IOF-crédito na cessão. | Empresas com volume recorrente de recebíveis e carteira pulverizada. |
| Securitizadora | Adquire os créditos e, em geral, emite títulos lastreados neles. | Em regra, não incide IOF-crédito na cessão. | Operações estruturadas e recorrentes. |
| Desconto bancário de duplicata | O banco adianta o valor e mantém direito de regresso contra a empresa. | Incide IOF-crédito (0,0082% ao dia (até 365 dias) + 0,38%). | Quem já tem limite bancário e precisa de agilidade. |
| Factoring | A empresa vende os créditos à factoring, que cobra deságio e taxas de serviço. | Incide IOF como operação de crédito (Lei 9.532/1997). | Operações pontuais. |
A tributação depende da estrutura da operação (por exemplo, coobrigação do cedente). Confirme com sua assessoria tributária. Para entender as estruturas, veja as diferenças entre FIDC, securitizadora e factoring e o que é um FIDC e como ele se relaciona com seus recebíveis.
O que define o deságio que a sua empresa paga
- Custo do dinheiro: a taxa básica de juros e o custo de captação do financiador formam o piso da taxa.
- Risco dos sacados: o histórico de pagamento dos seus clientes e a inadimplência da carteira. É o componente que mais varia de uma empresa para outra.
- Concentração: carteiras concentradas em poucos clientes pagam mais, porque um único atraso pesa muito.
- Prazo: quanto mais longo, maior o deságio em reais e maior a incerteza.
- Qualidade do lastro e dos dados: comprovação de entrega, notas fiscais e duplicatas bem registradas e um histórico organizado reduzem o risco de fraude e de disputa.
- Coobrigação: quando a empresa responde pelo não pagamento do sacado, a taxa tende a ser menor, mas o risco volta para o balanço do cedente.
Como reduzir o deságio: a taxa é o preço do risco da sua carteira
Boa parte da taxa de deságio remunera a perda esperada: a parte da carteira que o financiador estima que não vai receber. Pelo modelo simples do simulador, uma carteira com 4% de inadimplência e recuperação de 40% tem perda esperada de 2,4% no prazo. Em uma operação de 60 dias, isso equivale a 1,2 ponto percentual por mês embutido na taxa, mais da metade de uma taxa de 2,2%.
Reduzir a inadimplência para 2% corta esse componente pela metade. Com R$ 2 milhões antecipados por mês, a economia estimada é de R$ 24 mil por mês, ou R$ 288 mil por ano, sem trocar de financiador. A mesma lógica aparece nas provisões do balanço: veja como a provisão para devedores duvidosos reflete o risco da carteira.
Na prática, o que melhora a taxa é chegar à negociação com dados:
- Inadimplência baixa e decrescente, com aging organizado por faixa de atraso. Veja como gerenciar a carteira de recebíveis.
- Taxa de recuperação comprovada. Mostrar quanto do atraso volta reduz a perda esperada, mesmo com a mesma inadimplência. Entenda a taxa de recuperação de dívidas.
- Score dos sacados. Um histórico de pagamento por cliente permite selecionar os melhores títulos para ceder. Veja como funciona o score de crédito empresarial.
- Cobrança ativa nos títulos cedidos. Uma régua que começa antes do vencimento reduz o atraso dos próprios títulos que o fundo comprou, o que pesa nas próximas cessões.
Antecipar ou tomar capital de giro?
A antecipação faz sentido quando o custo efetivo é menor do que o da alternativa e quando a empresa quer liquidez sem aumentar o endividamento bancário. Na cessão sem coobrigação, o recebível sai do balanço; no desconto bancário, a empresa continua respondendo pelo título. Use o campo de comparação do simulador para ver a diferença em reais no mesmo prazo. Para planejar a necessidade de caixa, veja o que é capital de giro e use o Simulador de Fluxo de Caixa com Inadimplência.
Erros comuns ao avaliar uma proposta de antecipação
- Comparar só a taxa nominal. Tarifas e IOF podem acrescentar vários décimos ao custo mensal. Compare pelo custo efetivo.
- Ignorar a forma de cálculo. Desconto simples e composto geram valores diferentes para a mesma taxa.
- Esquecer as tarifas por título. Em lotes com muitos títulos pequenos, elas pesam mais do que parece.
- Antecipar todo o contas a receber. Antecipar só o necessário, e os títulos de melhores sacados, costuma sair mais barato.
- Não acompanhar a performance dos títulos cedidos. O histórico de pagamento da carteira cedida é o que o financiador vai olhar na próxima negociação.
Para gestoras e securitizadoras
Do lado do fundo, a performance da carteira depende da cobrança dos sacados depois da cessão. Uma operação de cobrança estruturada reduz atrasos, melhora a provisão e dá ao gestor visibilidade por cedente e por sacado. Veja como a Resolução CVM 175 impacta a gestão de carteira de FIDCs e quais critérios usar para escolher a melhor empresa de cobrança para FIDC e securitizadoras.